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A Casa das Janelas Verdes

há 7 dias
4 min de leitura

No meio de vales e pequenos montes verdejantes, por entre a sinuosidade das estradas e dos caminhos de terra, existia uma casa de pedra antiga com janelas muito verdes, guardada por uma mulher de cabelos de neve e uma gata cinza de olhos amarelos. Lá ao longe, encostada a uma árvore secular, um ponto de luz branco, uma capela antiga desenhada no meio dos campos.

 

Um abraço, um retomar de uma conversa há uns anos perdida no meio da urbe, por entre ideias criativas, e a entrada na casa de pedra. A casa respirava e, no seu interior, os objetos conversavam baixinho, num murmúrio que embalava, mas, ao mesmo tempo, desenterrava perguntas. A mulher de cabelos de neve oferecia um chá, enquanto a conversa acontecia por entre o fumo espiralado que saía das chávenas.

 

No meio das palavras, a gata ia passando, fazendo de conta que não ouvia, mas ia-se juntando aos almoços, aos jantares, aos chás e aos momentos de contemplação, de corpo aberto ao céu já meio adormecido.

 


O meu corpo repousava na paisagem, nos braços da casa, na voz da mulher dos cabelos de neve e, ao mesmo tempo, parecia sempre haver uma pergunta agarrada à paz que nos acompanhava. Na realidade não era uma, mas muitas. Parecia que surgiam dos caminhos que percorríamos nas entranhas do bosque, seguidas pelos passos saltitantes da gata que se aventurava pelos campos, pelos muros cobertos de musgo fofo a aquecer as suas patas, de olhar preso no emaranhado dos fetos ou nos braços nus das árvores já vestidas de outono.



Na terra estava um pequeno galho com chapéus de bolota que me chamou. Ainda durante a manhã tardia, conversámos os dois ao sol.

 

Trago-me dançante ao aqui e agora e tu galho de resquícios de árvore és mão. Uma mão que se abre para mim, tal qual a minha mão se abre para o mundo. E nessa mão aberta há presença e há limite. Tu, galho, tens contornos, limites, um corpo agora um pouco reduzido, mas que ainda assim existe… e talvez eu também possa estar num corpo um pouco mais reduzido, com órgãos a funcionar de outra maneira, um corpo transformado, tal como tu e, também, tal como tu, existe. Mão aberta, sentidos plenos, tu e eu brincámos e via-te no seguimento do braço longo da árvore, tu e eu dançamos e, sabes, fazemos parte deste chão e sabemos que temos chão, mesmo quando alguém nos tira, ou nós achamos que nos tira. A dança da vida, tu és resquício seco que se transforma em possibilidade. Foste um chapéu dos meus dedos, instrumento musical, foste capaz de me oferecer a música da tua pele e assim escutei a tua voz, a tua melodia, mesmo seca e áspera, é vida e existe numa transformação constante. E sabes, também posso ser tantas, num contínuo de transformação, capaz de tanto, mesmo que algumas partes possam estar mais secas… sim, na secura da existência também há possibilidade: a possibilidade de brincar, de criar rostos nas nuvens, de ser um novo elemento no meu rosto perante a surpresa da mosca que passa e me observa. Na imaginação podemos ser o que quisermos, e na vida não? Mesmo que tenhas caído do braço de uma árvore agora és elemento brincante nos meus dedos, na minha pele dos braços, das pernas, dos calcanhares… brincante sempre e profundamente em diálogo, porque na verdade foste-me contando os segredos da tua vida, da terra, dos lugares… e eu, transformada também, conto à minha maneira as narrativas que me tocam, que me atravessam. E somos elementos que dançam e que provêm do húmus morno e talvez também do pó das estrelas.

 

A voz cantante da mulher de cabelo de neve percorria as reentrâncias das portas, a ondulação dos caminhos, esgueirava-se por entre as castanhas caídas na terra e as flores silvestres espalhadas por ali pelo terreno da casa.


Os momentos de reunião à volta da mesa eram sempre encontros de vivências, de sabores com imensas texturas e cores, de silêncio, de observação das fartas latadas castanho-esverdeadas por cima da casa de pedra do vizinho do lado já com 97 anos, mas com força para ainda trabalhar a terra.

 

Descobri, naquele pedaço de terra, rodeado de montes e, ao longe, montanhas rodeadas de névoa cor-de-rosa, um santuário. Entrava-se por debaixo dos braços longos de castanheiros e escolhia-se um lugar para se estar pedindo autorização às árvores presentes. Quando elas acederam ao pedido, deitei-me numa cama rede de corpo virado para o teto do santuário, revestido por folhas de tamanhos e cores diversas, por onde entravam longos fios da luz do sol. Embalada pelas canções dos castanheiros, deixei-me estar a escutar as conversas dos pássaros residentes e a observar, através da janela do santuário, ao longe, as paisagens meias esbatidas que se iam transformando nas brisas.

 

No santuário

A contemplação vive

Das nossas vozes

 

No fim da tarde, um canto na despedida do sol e, depois, a dança do corpo sobre o seu eixo, de olhar pousado num janelo circular ao longe na paisagem para enraizar mais o equilíbrio.

 

A Gabriela, a mulher dos cabelos de neve, é a feiticeira que canta, brinca, alimenta, cuida e espicaça. Quando entras na sua casa, entras dentro de paisagens de apaziguamento, surpresa e pergunta. Quando entras na sua casa, de repente descobres-te ainda mais mar, quando queres ser rio, ainda mais montanha escarpada, quando queres ser planície.



 E, perto da casa da mulher de cabelo de neve, havia risos a escapulir-se das portas das casas vizinhas, com sabor a café, melodia de arroz a ser cozido na panela e janela virada para a manhã que finaliza. Ali as histórias tinham sorrisos antigos, com rugas grávidas de experiências.


No chão da casa de pedra com janelas muito, muito verdes, as ideias tinham cor e os caminhos tornavam-se mais sólidos até chegarem a uma clareira. A gata observava e escutava as histórias contadas ali.

 

Desci montanhas

Enfrentei medos, dores

Nasceu a força.

 

Da raiva em flor

Brotam mundos de esp’rança

E o sol a escutar.

 

Fotografias: Gabriela Cunha e Teresa Pêgo 

 

 

 

 

 

 
 
 

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