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O Ser vital e a Poesia Dançante das Possibilidades

  • Foto do escritor: tmpego
    tmpego
  • há 17 horas
  • 3 min de leitura

Rumei a Grândola, mais exatamente ao Coração Mãe da Terra - lugar onde aconteceu o Retiro Ser Vital, organizado pela Maria Silva. Encontrei lá presença, corpo, relação, natureza viva, família.


A estrada espiral serpenteava em direção a uma casa umbigo, por entre sobreiros de braços fortes e raízes bem assentes na terra. Acompanhavam o caminho oliveiras, abelhas, pica-paus, cavalos e os dois cães amor a sussurrar afetos por entre as conversas animadas das estevas.


À porta, um casal abraço - o Pedro e a Carol - a acolher vários corações. Não era por nada que aquele lugar se chamava Coração da Mãe Terra.


As formas de expressão ali eram diversas e reconhecíveis para todos, nem que fosse apenas através do corpo e do coração. O verde das folhas espreitava dentro e fora da casa. O pulsar da terra sentia-se no chão e nas mesas de madeira, onde o grupo se reunia.


A Maria, sempre a doce Maria.

Corpo terra, voz aquosa, cabelos de fogo.

Uma presença ondulante, profunda.


Desta vez, esta mulher abriu espaço para a vivência do ser vital - onde corpo, mente, espírito, alma dialogavam num contínuo de pausa e movimento, um fluir orgânico de gavinha. O ar que nos percorre alumia lugares do corpo adormecidos, impulsionando-nos à exploração vagarosa. Talvez o ser vital seja isso: acolher o que a vida revela à medida que respiramos. De mãos assentes na terra, deixamos o corpo ser montanha, elevamos uma perna e depois um braço e tocamos a pele cósmica dos multiversos. A brisa percorre a paisagem interna, sustida pelo tronco eixo que, raiz, deixa as periferias serem onda.


No círculo também nos encontramos, escutando os segredos do corpo, do espírito e da alma. No enlace das mãos, compreendemos a pertença e deixamos que a flor de lótus floresça, celebrando a proximidade humana, ao ritmo do coração.


As raízes não crescem sozinhas

Elas expandem-se na brisa dos afetos

Onde tu és pétala e cada pétala é lótus

Num círculo cósmico amoroso.

 

No repousar dos pés, no regaço morno da terra, há segredos por desvelar, que se revelam à medida da abertura do nosso coração.


O corpo da natureza fala: os lagos refletem os dons esquecidos; as copas das árvores oscilantes lançam no ar os sentimentos gastos, mostrando-nos feixes de luz feitos de esperança por entre a sua pele de sabedoria; as flores silvestres segredam aos nossos pés os segredos de um novo caminhar; os troncos rugosos das árvores apelam ao sentir das nossas mãos para que possamos escutar a vivência secular das histórias nas suas rugas.



Por entre esta pele viva, a Maria surgia na voz da manhã, convidando ao pranayama com um elemento natural. Já experimentaram respirar com uma árvore? Com o sol? Com um lago?


Na cabeça triangular da casa umbigo, havia sussurros, sons de taças douradas nas mãos mágicas da Cláudia e tambores oceânicos, sob o olhar curioso das rosas e das ametistas. Aconchegavam-se pensamentos por entre almofadas, expressões coloridas, livros sobre yoga, e Maria, no centro da roda viva, convidava à reflexão conjunta sobre a energia subtil.


A nutrição ali acontecia sem tempo com a presença do corpo, mente, consciência e o casal abraço permitia que isso acontecesse, surpreendendo-nos no tempo em que o corpo precisava de embalo com a frescura límpida do alimento.


A alquimia emergia quando a aridez da inquietude se transformava em palavra pensamento líquido durante conversas que se espreguiçavam sem tempo, ao sabor de um sol que adormecia nos horizontes verdes da paisagem.


A Maria parecia fazer parte da paisagem. Difícil dizer a que elemento pertence, talvez a todos. Os seus convites abriam espaço ao inesperado.



  O corpo expandia nos asanas, no pranayama, no movimento dialogante da intuição com os habitantes que moram no exterior da casa umbigo. E também na contemplação.

Como se movimenta o ser vital?

Como o sentimos na subtileza ondeante da quietude?

Que histórias surgem?

Coração suave

Carícia aberta à vida

Dança lenta do presente

Em escuta alegre

Saltitante

As flores sentem

A roda viva do ser

De peito escancarado ao vento

A pele acolhe

Lenta e vagarosamente

Os sorrisos da brisa

A pele escuta

A pele da pele…


            Na leveza do movimento, há conversas de borboletas a beijar o coração, fazendo-nos esquecer os medos, e dando uma nova voz às hesitações.


            Debaixo de um céu azul profundo, os corações aquecidos em círculo deixavam a voz cantante do ser revitalizado emergir da invisibilidade do corpo, sentindo o pulso ritmado da guitarra do João e do djambé do Ricardo. Kirtan.


Na casa umbigo do casal abraço, os braços solares traziam os corações ao centro. Família. “Do Todo nasce o Todo e removendo o Todo do Todo, o Todo permanece. Om…”



Om

Purnamadah Purnamidam


Purnat Purnamudachyate


Purnasya Purnamadaya


Purnamevavashishyate


Om

 

 

Fotografias: Cláudia Sá, Maria Silva, Teresa Pêgo

 
 
 

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