A Casa que Já Somos - Instalação Poética
10 de outubro de 2026. Três horas da tarde.
Num sábado outonal, na Casa da Eira, na Fundação Gramaxo, as portas da Casa abriram-se.
Lá fora, a voz de uma das mulheres espelho ouvia-se por entre as pedras e as árvores.

“Gostava de vos abrir uma porta. Talvez a porta seja uma história. Talvez uma viagem. Ou talvez seja uma casa onde entramos. Uma casa habitada por corpos que viajam, por encontros inesperados, por pequenas grandes coisas que trazem sempre mais alguma coisa às nossas vidas. (…)”

As portas da Casa abriam de par em par, muito devagar, e a luz entrava, iluminando o mundo lunar de cada um. No coração tudo se iniciava, numa escuta profunda do ritmo silencioso da fonte. O coração tambor de silêncio vai abrindo o corpo à vida, em passadas lentas, acompanhadas, um coração silencioso a fazer-se audível numa casa corpo que pulsa. O ar é rio e peregrino, tocando todas as partes de um corpo que ergue, abre, expande e move, criando pontes com o todo.
“É na respiração do corpo madrugada que tudo se inicia. A vida murmura. (…)”
A teia invisível desenhava-se no ar na dança de um lenço, limiar, que era ponte entre as que dançam e os que escutam e veem. A história escrevia-se no ar, embalada pela leveza do corpo coração em dança, uma teia a ganhar corpo diante da nossa presença e a chegar ao chão, transformado em flor, rodeado pelo nosso ninho embalo. As mulheres espelho sentiam-se, sabendo-se fios da teia que se entrelaçava, uma teia conjunta construída com a doçura do tempo.

A flor de lótus abria nas mãos, vinda do fundo do pó da terra e desabrochava em pequenas partículas de luz. O movimento dos corpos em dança partiam do centro em espiral para aqueles que escutavam e se erguiam, escutando eles também os seus corações. Dava-se então a travessia da Casa para o mundo, em silêncio, de olhares pousados em rostos, em risos, em folhas de árvore, em chão de pedra, em brisas.
A Casa era livro e depois era espaço, uma relação entre corpos, deixando de ter paredes. Nessa viagem do centro à abertura, em espiral, alguns seres dançaram juntos e todos fomos casa e tocámos, fomos tocados, observámos, brincámos, sorrimos em silêncio…

Aos poucos a Casa abria-se a uma criação com vários rostos, vários corações, várias paisagens, ganhando vida em relação, no encantamento daquilo que não é esperado.
“(…) do limiar da terra
dá-se o reconhecimento do espelho
percebendo a Casa que Já Sou
percebendo a Casa que Já Somos (…)”
O meu agradecimento profundo às queridas mulheres espelho, guardiãs desta Casa: à Cristina Reis Fonseca, à Ema Alba Lobo, à Luísa Azeredo, à Maria Silva, à Maria Barroso.
Fotografias: Afonso Pêgo Garcia




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