Yoga e o som do silêncio - Um Retorno à Origem
- tmpego

- 13 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
De volta ao centro, recordação e expansão em histórias de infinitas possibilidades.
A Maria era a nossa guardiã deste santuário, um templo erguido em silêncio e entrega. Já falei da Maria muitas vezes, mas ainda assim, há algo nela que foge às palavras. Mulher feiticeira, mulher de cabelos mel, conversa com os montes, com as pedrinhas e galhinhos esquecidos das árvores, com os bichinhos invisíveis da terra e com as galáxias imensas da tela celeste. Sabe ouvir e escutar e, assim, sabe a palavra a usar.

Os seus convites eram delicados e chamavam-nos à exploração dos corpos, das nossas paisagens internas, dos mundos visíveis e invisíveis que nos habitam. Uma presença firme e, ao mesmo tempo, de uma doce leveza amorosa. Dos pés da Maria nasciam raízes a tocar o coração da terra; das suas mãos, narrativas de possibilidades infindáveis; do rosto, uma linguagem silenciosa a viajar para além do universo conhecido, criando fios de luz a unir multiversos; nos seus cabelos fogo crepitava a chama que nos iluminava e guiava.
viagens ao interior
da minha terra
um apelo para me adentrar
para caminhar
para além da fronteira das peles
um pulsar
num murmúrio de ecos
in “Baralho Poético, Asas de Ouroboros”

Cuidado. Escuta do corpo com as suas vozes subtis de conforto e desconforto, explorando o ponto de equilíbrio, aprendendo a ser centro, tal qual luz de fogo, luz de vela. A vela e a luz eram espelhos: o ser centro, mantendo a verticalidade serena da chama acesa, mesmo nas intempéries. É tão tentador deixarmo-nos apagar, deixar que a luz se apague no rumor das sombras, mas é nessa fronteira entre aquilo que é luz e escuridão que a humanidade se revela.
Como é que esta viagem nos atravessou e como é que o corpo recebeu essa travessia, deixando-se tocar pelo silêncio?

O retorno à origem é o escutar do corpo que é matéria viva, cambiante. Sem voz, o olhar e a escuta aguçam. Tudo abranda. O tempo desacelera e torna-se poético e há um convite ao recolhimento: compreender o pensamento que emerge, a dor que desperta, a emoção a insinuar-se. Tomar o tempo e olhá-lo bem fundo nos olhos, percebendo os movimentos dos outros que nos circundam.
Como me movo eu? E tu como te moves?
No meu movimento há um eco do teu e vice-versa.
Pertença.
Somos todos da mesma pele – uma rede invisível que pulsa e nos sustém. Será que o silêncio nos pode tornar ainda mais humanos? Aproxima-nos da origem?

Na expansão do corpo, a escuta das águas, a escuta do centro. Nesse lugar uterino, o pulsar criativo era embalo e recordava-nos de onde viemos. Cada vibração, pela mão da Cláudia Sá, a maga do som, fazia-nos mergulhar no uno cósmico e o silêncio conjunto era alimento mental, espiritual, físico. Saborear cada pedaço de alimento, escutar o ritmo dos passos, os gestos, as respirações. A mesa era partilha, um laço criado pelo silêncio. Bastava o olhar.
Precisaremos nós de mais para nos unirmos profundamente?
O silêncio é tanto.
Um olhar, um sorriso, um toque – a revelação do universo, ali.

A caminhada silenciosa pela paisagem sem visão foi renascimento. Não apenas pela ausência do olhar, mas pela disponibilidade corporal, pela entrega ao novo, porque a paisagem é portal para inúmeras possibilidades, é uma caminhada infinita de narrativas imensas e abertas. Nesta trilha, caminhávamos juntos, sustentados pela presença do outro, pela sua leveza, pelo sorriso subtil, a sua simplicidade brincante tão bela.

Sem a venda, vi mãos numa exploração morosa da pele dos troncos, das plantas, das pedras, da terra. Vi mãos e corpos abertos à novidade, àquilo que surpreende e não se sabe como nos vai encontrar, o coração rendido à surpresa. Com o olhar vedado, a natureza falava alto e a imaginação, fractal e sem fronteiras, abria mundos. Nesse caos de espanto entusiasmado, era um desafio concentrar-me nas gotículas frescas da manta de ervinhas, na dureza áspera dos muros de pedra, na assertividade vertical de uma planta pontiaguda. Uma pedra saltou-me para as mãos e senti-lhe a textura, o perfume a húmus fresco. Ofereci-a à minha acompanhante na viagem dos sentidos. Nunca olhei a pedra com os meus olhos, mas senti-a com o meu corpo. Recebi metade de uma casca de noz vazia e até hoje é companhia. Aquele invólucro foi útero e placenta, memória de um fruto que seguiu viagem. Nas minhas mãos segurava múltiplas histórias de um início que se transformou em continuidade. A vida é feita de trocas – que viagens pertencem a cada uma delas? Como nos tocam? Como nos atravessam?

Como me vejo na escuridão do silêncio? Que desafios emergem? Como atravesso o deserto escuro da alma?
Enlaçadas por fios invisíveis que a teia do tempo tecia, descemos a estrada em direção ao rio no lusco-fusco róseo de um entardecer limpo. Na ausência da palavra, sentíamo-nos mais do que nunca e ninguém era deixado para trás. Os passos moviam-se no triângulo de luz a dançar na gravilha, por entre as mãos e braços das árvores que formavam arcos de reverência à nossa passagem. Se fizéssemos ainda mais silêncio dentro, conseguíamos ouvir-lhes as risadinhas de contentamento pela nossa presença. Desembocámos na beira do rio e espalhámo-nos, de corpo atento aos sons da terra, da água, do céu estrelado - do espaço, do cosmos.
Ali deixei muito de mim, pequenos pedaços aos quais dei demasiada importância e dali trouxe pertença e a história que o céu estrelado nos contou: a dança de uma estrela a saudar-nos e a lembrar-nos que os sonhos vivem em nós e podem ser concretizados. Trouxe também as sombras recortadas na noite rósea, o encantamento coletivo que nos encheu o peito de lágrimas de gratidão pela beleza desmedida do mundo.
Acordávamos sob o afago da bruma da manhã, entregues ao renascer do corpo, da mente e do espírito. De olhos escondidos, saboreávamos o mundo: cada textura, cada sabor a viajar dentro da boca, uma surpresa, uma revelação que ora dançava entre o macio doce, o crocante, a explosão líquida de um fruto amargo e doce.
O corpo era viagem e horizontes novos surgiam a cada respiração. No santuário iluminado pelo candeeiro de cor de vinho, os corpos das mulheres giravam em silêncio, o giro sufi de cada corpo único. A mente aquietava, o ruído dissolvia e o amor crescia numa unidade cósmica. Em cada giro sufi, uma mulher erguia-se em direção ao centro e daí brotava uma história – bela, única, silenciosa.
Criávamos espaços de encontro e seguíamos o convite de um gato na esquina do labirinto de arbustos que depois desaparecia naquela espiral de verde; deixávamo-nos enlevar pelo odor de café proveniente de um camião casa mágico, seguindo o saltitar despreocupado de gafanhotos sobre o tapete de agulhas de pinheiro.

Entre risos e silêncios plenos, criávamos mundos efémeros e deixávamo-nos surpreender por abraços quentes e doces que quando aconteciam com a visão toldada se tornavam ainda mais imensos e profundos. Quando os olhos voltavam a abrir, o mundo parecia ter sido recriado: as teias de aranha oscilantes nos arbustos aparados – teias ora em espiral, ora em amálgama de fios formando uma mancha de cor pérola – eram obras-primas suspensas.

Reuníamo-nos em roda, em torno do fogo a crepitar e ali o peso transformava-se em oferenda. Em silêncio, contávamos umas às outras histórias sem voz.
No crepitar do fogo, o supérfluo tornava-se cinza
No ondular da água, dissolvia-se
Na brisa do ar, esvanecia
No quente da terra, renascia
E do silêncio nascia o sussurro e, dele, a palavra renovada.
Na mente serena, a palavra surgia agora purificada, consciente, essencial. O que vale a pena ser dito? Que palavra é seiva, alimento?
O silêncio era o asana que se movimentava na invisibilidade, o gesto que não move, mas se expande. O yoga não é apenas o dobrar de um corpo, mas uma alma que vai para além da forma, um laço a unir a respiração e o cosmos, o eu e o todo.

Retornamos, então, a nós e expandimos. Somos silêncio vivo e aí tudo começa.
Teresa Pêgo
Fotografias: Maria Silva, Cláudia Sá



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